OBAMA - NOVA ABORDAGEM DO CONFLITO COM O IRÃO PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Administrator   
Terça, 07 Abril 2009 11:15

Domingos Lopes

O discurso de Obama representa uma mudança em relação às posições assumidas pelo seu antecessor.

Em vez de diabolizar o Irão como fazia G. W. Bush, Obama, mais realista, pretende dialogar. É um primeiro gesto destinado a quebrar o impasse. Khamenei já respondeu. Fica a aguardar.

Mas o que há de facto de novo?

A situação regional devido à política de Bush complicou-se demasiado para os EUA e seus aliados.

Sem dar um tiro, o Irão passou a dispor de uma enorme influência no Iraque, como consequência da derrota dos sunitas no Iraque e a subida ao poder das organizações chiitas, próximas do Irão.

Sem dar um tiro, face à gravíssima instabilidade e insegurança no Afeganistão, o Irão que tem influência por via das comunidades azeris e tajiques e nas respectivas milícias naquele país. Face à ingovernabilidade do Paquistão, ganhou novo peso na abordagem do conflito.

A sua influência estende-se à Ásia Central no Tajiquistão e Turquemenistão.

No Mediterrâneo Oriental o Irão por via dos seus aliados do Hezbollah ganhou um protagonismo acrescido.

Tem influência nas comunidades chiitas da Arábia Saudita e de outros Estados do Golfo.

O Irão é hoje sem sombra de dúvidas e após a guerra do Iraque uma potência regional.

O descalabro da política dos EUA no Iraque e no Afeganistão e o seu apoio cego a Israel deixaram os EUA mais isolados do que estavam antes; e aumentaram assustadoramente o crescimento das correntes fundamentalistas. É neste contexto que deve ser encarado o discurso de Obama.

Os EUA querem negociar com o Irão e parece terem compreendido que as ameaças ao regime iraniano não conduziam a bom porto.

Na verdade a opção militar de momento fica posta de parte, o que significa que os falcões de Israel inevitavelmente vão ter de a respeitar.

Há, porém, um longo caminho muito tortuoso e difícil.

Obama diz que o lugar do Irão na comunidade internacional não pode ser alcançado por meio de terror ou das armas, mas sim por meio de acções pacíficas que demonstrem a verdadeira grandeza do povo iraniano e da sua civilização. E acrescenta que a medida para construir essa grandeza não é a capacidade para destruir, mas para demonstrar a sua habilidade para construir e criar.

Se esta for a base muito vai ter de mudar, a começar pelos EUA e a acabar em Israel.

Os EUA não podem ser o país que gasta em armas de destruição de terror tanto como quase todos os outros países do mundo e exigir aos outros o que eles não fazem. Ou exigir ao Irão o que não exige a Israel, país que detém centenas de armas nucleares.

Nesse sentido não faz sentido manter as sanções decretadas por si e por outros ao Irão pelo facto deste país estar a desenvolver reactores nucleares e dar todo o seu apoio a Israel que ocupa territórios de outros países e detém armas nucleares, à margem do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares. O próprio Director da CIA já veio a público desmentir que tão cedo o Irão possa vir a fabricar armas nucleares.

O discurso de Obama baixa a elevada tensão que existe na região. Afasta os ventos de guerra. E pode vir a ser, caso se conforme com os interesses globais da região, uma base de desenvolvimento para um novo arranjo mais justo da região do Golfo Pérsico e quiçá no Médio Oriente.

 

Domingos Lopes

 

 

Actualizado em Terça, 07 Abril 2009 11:17